Ela se transformou





Ela se transformou no que tanto queria, mas no fundo, nem sabia tanto desse querer. Sem querer, ela se transformou no que tanto temia ou o que tanto fazia ele temer. Ela se transformou no que escrevia mesmo sabendo que aquilo era só mais uma ilusão que a poesia, às vezes, carrega consigo. Ela se transformou no que dos outros ouvia que seria bom, mas não acreditava que mudaria alguma coisa. Ela se transformou no que a fez abrir a porta de seu coração para alguém que a fez acreditar que tudo seria melhor e aos poucos, como o vento nas dunas de areia, foi carregando grão por grão, olhar por olhar até que de sua essência já era, apenas, uma lembrança. Porém, o mesmo jeito que a fez abrir a porta a fez fechar para se transformar. Ela se transformou em alguém que não tem medo de rir de uma folha que caiu no chão. Ela se transformou em alguém que ama suas fotografias do céu. Ela se transformou em alguém que não tem medo de atravessar a rua sozinha. Ela se transformou em alguém que não tem medo do espelho.  Ela se transformou no que queria ver no espelho. Ela se transformou naquela que não precisa de alguém que ria das piadas dela, pois, ela mesma ri. Ela se transformou em alguém que não precisa ouvir palavras belas antes de ir dormir para conseguir acordar sorrindo. Ela sorri por nada. Ela se transformou em alguém que assiste filme de romance comendo pipoca de domingo. Ela se transformou em alguém que escuta música clássica nos fones de ouvido. Ela se transformou na melhor amiga que ela queria ter. Ela se transformou na pessoa que escreve sobre o amor, mas o amor que nutre pela pessoa em quem se transformou.

O amor como esmalte de unha


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Viver um relacionamento é como pintar as unhas. Antes da criação artística em uma parte tão singela de nosso corpo é necessário escolher o esmalte. E, assim como existem diversos tipos de pessoas existem diversos tipos de esmaltes. O primeiro deles é aquele esmalte barato. Estava em promoção, você precisava de algo novo, algo fácil de conseguir. Então você cai na tentação de desacreditar na frase que “o barato custa caro” e compra. Acontece que, esmaltes baratos duram muito pouco. Assim que você termina de passa-los já estão com aparência desgastada. Duram dois ou três dias no máximo e saem inteiramente. O segundo tipo de esmalte é o mediano. Ele não é tão caro como outros, mas nem tão barato como o da promoção. Aparentemente parece que cumpriu bem com a função, mas os dias passam e pouco a pouco ele corre de suas mãos até que você começa a perceber que uma unha pintada pela metade não é algo bonito e retira o que sobrou com a acetona mandando tudo embora. Mas, também existem os esmaltes mais caros, ou melhor, mais raros. Além de possuírem cores magníficas em sua essência também representam durabilidade. Você pode nadar. Fazer os afazeres da casa. Passam semanas e ele continua inteiramente em sua mão. E, mesmo que um dia resolva tirá-lo para pintar de outra cor, tem a certeza que vai voltar a chama-lo de novo.

Crítica - A cidade do sol


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Livro: A cidade do sol
Autor:Khaled Hosseini 
Leitura: Fácil e envolvente
Diferencial: Palavras utilizadas na região e na cultura que a história mostra. 
Classificação: 5 estrelinhas 

         Inesquecível. A palavra que melhor resume todas as sensações, todas as emoções, as dores e pensamentos ao ler cada singela e intensa palavra dessa grande obra. É necessário ter a mente aberta e o coração disposto a sofrer por personagens que, mesmo vivendo entre as linhas, vivem na vida real. Não que o livro seja baseado em fatos reais, mas a história, a luta, a guerra, tudo, acontece diariamente no mundo que o livro aborda. O Afeganistão e o universo inteiro agradecem a esse autor tão corajoso, Khaled Hosseini, por abrir as portas de nossa mente para conhecer esses lugares, essas situações e horrores que o povo de lá passa. E tudo isso devido à construção de duas personagens, fortes, corajosas e verdadeiras guerreiras. Mulheres. Que entre os muros dos países orientais sofrem por existir. São culpadas por respirar. E é exatamente isso que o livro mostra. Apesar de cada humilhação, apesar de cada gota de sangue que encharcava suas vestes, apesar de cada agressão sofrida, dente perdido, submissão e apesar de poder ver o mundo apenas pelo buraquinho da burqa não desistiram em nenhum segundo de lutar.

O quanto vale o riso de uma criança?

                         




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Você sabe o quanto é incrivelmente mágico ouvir uma risada infantil, não sabe? O quanto tudo parece melhorar quando, por um segundo, você ouve aquele som que mais parece uma sinfonia de Beethoven levada ao vento. Acontece que, em um segundo, ela pode ser levada. Ao longe.
O tráfico de crianças é algo que assusta. É algo que mexe tão profundamente com cada parte do nosso corpo que é melhor até evitar falar sobre isso. Na verdade, acredito que esse seja o maior erro que a humanidade comete. Evitar falar sobre isso. Não que não seja emitido nacionalmente nas telas das nossas televisões o fato de que o número de crianças que são submetidas a essa crueldade cresce absurdamente. Não que não saibamos a quantidade de crianças que perdem, todos os dias, a chance de crescer, de brincar e até mesmo de viver. Não que não esteja retratado em nossos livros de história, histórias que demonstrem que desde os tempos antigos as crianças também eram torturadas. Isso tudo está explícito. Mas, falar sobre o tráfico de crianças torna-se perigoso. Perigoso para alma.

A arte de escrever demônios




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             Ás vezes penso que tudo o que escrevo não passa de uma ilusão. É como se no final da última linha, do último verso o sentimento moralista invade a criatividade e o escritor precisa fazer com que o leitor faça a coisa certa. Espante seus demônios, caro amigo, e a vida ficará bela. Mas, acho que não é bem assim que acontece. Na realidade, escrever para alguém é nada mais nada  nada menos que escrever para e sobre si mesmo. Trocamos a tela por um espelho. Um papel por um auto retrato. Afinal, fica muito mais fácil dizer que é apenas uma história criada para encantar leitores e emaranhar-se nas curvas da imaginação. Até porque, no momento que você fala sobre algo você também sente esse "algo" ou pensa nisso ou percebe isso ou, até mesmo, quer fugir disso. Digamos que seja como dar um conselho. Conselhos sempre são dados baseando-se no que o conselheiro acha e pensa ser o melhor, e muitas vezes, seu ambiente observatório seja a própria a vida. Os conselhos podem dar certo para quem escuta e não dar para aqueles que o falam, Então, o fato de alguém escrever sobre saudade pode significar que esse alguém sente saudades. Falar sobre amor é só mais um sintoma de indivíduos amantes que pensam que rosas nunca murcham. Poetizar sobre dor é trazer dor no fundo do peito. Escrever, sem mais delongas, é despertar seus próprios demônios. É mostra que eles existem, eles persistem, eles possuem uma certa beleza interior e no final são sufocados com o final moralista do texto.

Ser papel: a arte de escrever a si mesmo




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Quando terminei de ler o livro Cidades de Papel do John Green pela terceira vez, pensei em como as entrelinhas bagunçaram a minha visão de mundo. Na realidade, pensar que nossas relações, nossas cidades, nossas vidas podem ser de papel assustou o coração de alguém que pensava que tudo era feito de aço. Não no sentido literal da coisa. Não sou leiga ao ponto de pensar que cada célula do meu corpo é composta por celulose e que nossa existência é originada de uma árvore derrubada. Não. Mas sou leiga ao ponto de pensar que tudo o que pensamos, o que queremos, o que amamos é tão fino e desmanchável como papel. E faz muito mais sentido pensar que somos um conjunto de linhas que se cruzam e são escritas pouco a pouco do que um material que seja impenetrável e resiste. Pense bem, o papel desmancha quando entra em contato com a água, não é mesmo? Assim como as lágrimas que derramamos são os sinais de que nosso coração está desmanchado, seja de alegria ou de uma dor indescritível. O papel pega fogo com mais facilidade do que o aço, assim como pega fogo nossos sentimentos quando algo que está fora da nossa trajetória de vida extremamente calculada, como se apaixonar por exemplo. O papel é maleável. Assim como nossa capacidade de ser. É amassado e desamassado. Assim como enfrentamos situações que pareciam ser impossíveis de serem vencidas mas que no final tudo fica bem. O papel forma dobraduras, assume forma de borboleta, de barquinho, de chapéu de pirata e múltiplas facetas. Assim como assumimos diversos papéis durante a nossa passagem como o de ser filho, ser pai, ser amigo, ser  o super-herói na vida de alguém e o de ser você mesmo. Sei que, talvez, a mensagem do livro era de demonstrar como ser de papel é perigoso, como as relações são passageiras, como tudo é desmanchável, como nada é sólido e real. Mas, sinceramente, prefiro ser papel do que ser aço.

Repita comigo: a arte de não repetir





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Não sei o que escrever. Na realidade, esta é a décima primeira tentativa de colocar algo no papel. Escrevo. Jogo fora. Escrevo. Jogo fora. Escrevo. Jogo fora. Repetitivo não? É engraçado como notamos a repetição de palavras em um texto, mas não notamos a repetições de ações em nossas vidas. Deixe-me adivinhar, você levantou, tomou seu café apressadamente, pois certamente estava atrasado. Foi para o trabalho/ escola. Sentou-se. Fingiu prestar atenção nas folhas que estavam em sua frente, até porque, mesmo que o conteúdo que preenchem suas linhas é diferente daqueles que preenchiam ontem continua sendo conteúdo e a folha de papel continua sendo de papel  o mesmo papel que todo dia está na porta da sua geladeira contendo a mesma lista de compras que você utilizou no mês passado por mais que  escreveu uma nova lista de compras no mesmo papel com os mesmos produtos que escolhe periodicamente ano após ano e que raramente trocam de lugar na prateleira porque você acostumou-se a frequentar o mesmo supermercado pelo fato de se sentir em casa e por simplesmente temer a mudança e a adrenalina que ela causa. Não, eu não utilizei uma vírgula sequer na oração pelo simples fato de que, assim como a frase, a nossa vida corre. Corre tanto que nosso corpo não consegue acompanhar. Nossa mente não consegue suportar. Chega um momento que a rotina torna-se uma palavra que se repete muitas vezes na redação e que faz perder a organização do texto. Mas, rotina não é organização? Não é ter uma lista de coisas para fazer? Ou uma lista de coisas para olhar? Ou uma lista de coisas para comprar? Mas e uma lista de coisas que quer sentir? Será que a rotina nos permite pensar no que queremos sentir, agora?