Não estamos sozinhos, somos sozinhos

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Demorei para compreender que o amor deve ser livre. Livre de qualquer sentimento de pertencimento que possa existir. Porque, é exatamente isso. Ninguém pertence a alguém. Ninguém pode possuir controle sobre outrem. Somos completamente livres. Sempre há a possibilidade de partida. A cada momento pode ser o momento do adeus. Cada segundo pode ser o último segundo e você não possui controle nenhum sobre isso. As pessoas partem, sempre partem, elas podem partir. Algumas escolhem partir. Algumas pedem perdão por partir. Algumas partem sem o momento de despedida. Algumas partem sem dar aviso prévio. Algumas partem aos poucos. Algumas partem porque a vida as fez partir. É inevitável, é incontrolável, é algo que transcende seu ser. Consegue entender? Se não conseguir, está tudo bem, é uma construção. É uma longa e dificultosa construção acordar e perceber que, na realidade, todos partimos. É uma longa e dificultosa construção perceber que somos sozinhos. Acredito que problemas nas relações humanas, como insegurança, medo, ciúmes e até mesmo o amor próprio está fortemente vinculado ao não enxergarmos que somos sozinhos. Somos sozinhos. O fato de possuirmos muitos amigos. Termos uma família. Estar ao lado de um grande amor, só nós deixa mais solitários ainda. Eu sei, é difícil de compreender. Mas, quanto mais pessoas você ama, quanto mais pessoas você convive, você transmite uma parte do seu ser, maior é a chance de partida. Porque não temos controle nenhum sobre isso e sobre nada a não ser sobre nós mesmos. Eu não posso controlar os sentimentos de alguém, as atitudes de alguém e muito menos, a hora que esse alguém decide partir, pois, a vida controla isso para mim. É nesse ponto que quero chegar quando digo que todos somos livres.  Não podemos deixar que a insegurança de perder alguém pelo nosso jeito de ser nos transforme em uma prisão sentimental. Isto é, mostre o que há de melhor em você, mostre o que você realmente é. Muitos irão ir embora porque devem ir embora, porque querem ir embora e porque possuem a liberdade de ir embora. Agora, quem decidir ficar é porque quis realmente ficar, é porque viu algo em você que não encontra em qualquer outro alguém. Por isso desejo a todas as pessoas que eu amo que conheçam o máximo de pessoas que conseguirem que conheçam todos os lugares possíveis para conhecer, pois, são livres. 

Entre goles





Em meio a goles
Mórbidos
Garrafais
Engarrafei minha dor
E atirei ao mar
Dos seus olhos
E em meio a linhas
Entrelinhas
Rasbiquei
O que querias dizer
Ao olhar nos seus olhos
Afoguei-me com palavras
Engasgadas
Surradas entre o amor
E o medo

Ela se transformou





Ela se transformou no que tanto queria, mas no fundo, nem sabia tanto desse querer. Sem querer, ela se transformou no que tanto temia ou o que tanto fazia ele temer. Ela se transformou no que escrevia mesmo sabendo que aquilo era só mais uma ilusão que a poesia, às vezes, carrega consigo. Ela se transformou no que dos outros ouvia que seria bom, mas não acreditava que mudaria alguma coisa. Ela se transformou no que a fez abrir a porta de seu coração para alguém que a fez acreditar que tudo seria melhor e aos poucos, como o vento nas dunas de areia, foi carregando grão por grão, olhar por olhar até que de sua essência já era, apenas, uma lembrança. Porém, o mesmo jeito que a fez abrir a porta a fez fechar para se transformar. Ela se transformou em alguém que não tem medo de rir de uma folha que caiu no chão. Ela se transformou em alguém que ama suas fotografias do céu. Ela se transformou em alguém que não tem medo de atravessar a rua sozinha. Ela se transformou em alguém que não tem medo do espelho.  Ela se transformou no que queria ver no espelho. Ela se transformou naquela que não precisa de alguém que ria das piadas dela, pois, ela mesma ri. Ela se transformou em alguém que não precisa ouvir palavras belas antes de ir dormir para conseguir acordar sorrindo. Ela sorri por nada. Ela se transformou em alguém que assiste filme de romance comendo pipoca de domingo. Ela se transformou em alguém que escuta música clássica nos fones de ouvido. Ela se transformou na melhor amiga que ela queria ter. Ela se transformou na pessoa que escreve sobre o amor, mas o amor que nutre pela pessoa em quem se transformou.

O amor como esmalte de unha


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Viver um relacionamento é como pintar as unhas. Antes da criação artística em uma parte tão singela de nosso corpo é necessário escolher o esmalte. E, assim como existem diversos tipos de pessoas existem diversos tipos de esmaltes. O primeiro deles é aquele esmalte barato. Estava em promoção, você precisava de algo novo, algo fácil de conseguir. Então você cai na tentação de desacreditar na frase que “o barato custa caro” e compra. Acontece que, esmaltes baratos duram muito pouco. Assim que você termina de passa-los já estão com aparência desgastada. Duram dois ou três dias no máximo e saem inteiramente. O segundo tipo de esmalte é o mediano. Ele não é tão caro como outros, mas nem tão barato como o da promoção. Aparentemente parece que cumpriu bem com a função, mas os dias passam e pouco a pouco ele corre de suas mãos até que você começa a perceber que uma unha pintada pela metade não é algo bonito e retira o que sobrou com a acetona mandando tudo embora. Mas, também existem os esmaltes mais caros, ou melhor, mais raros. Além de possuírem cores magníficas em sua essência também representam durabilidade. Você pode nadar. Fazer os afazeres da casa. Passam semanas e ele continua inteiramente em sua mão. E, mesmo que um dia resolva tirá-lo para pintar de outra cor, tem a certeza que vai voltar a chama-lo de novo.

Crítica - A cidade do sol


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Livro: A cidade do sol
Autor:Khaled Hosseini 
Leitura: Fácil e envolvente
Diferencial: Palavras utilizadas na região e na cultura que a história mostra. 
Classificação: 5 estrelinhas 

         Inesquecível. A palavra que melhor resume todas as sensações, todas as emoções, as dores e pensamentos ao ler cada singela e intensa palavra dessa grande obra. É necessário ter a mente aberta e o coração disposto a sofrer por personagens que, mesmo vivendo entre as linhas, vivem na vida real. Não que o livro seja baseado em fatos reais, mas a história, a luta, a guerra, tudo, acontece diariamente no mundo que o livro aborda. O Afeganistão e o universo inteiro agradecem a esse autor tão corajoso, Khaled Hosseini, por abrir as portas de nossa mente para conhecer esses lugares, essas situações e horrores que o povo de lá passa. E tudo isso devido à construção de duas personagens, fortes, corajosas e verdadeiras guerreiras. Mulheres. Que entre os muros dos países orientais sofrem por existir. São culpadas por respirar. E é exatamente isso que o livro mostra. Apesar de cada humilhação, apesar de cada gota de sangue que encharcava suas vestes, apesar de cada agressão sofrida, dente perdido, submissão e apesar de poder ver o mundo apenas pelo buraquinho da burqa não desistiram em nenhum segundo de lutar.

O quanto vale o riso de uma criança?

                         




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Você sabe o quanto é incrivelmente mágico ouvir uma risada infantil, não sabe? O quanto tudo parece melhorar quando, por um segundo, você ouve aquele som que mais parece uma sinfonia de Beethoven levada ao vento. Acontece que, em um segundo, ela pode ser levada. Ao longe.
O tráfico de crianças é algo que assusta. É algo que mexe tão profundamente com cada parte do nosso corpo que é melhor até evitar falar sobre isso. Na verdade, acredito que esse seja o maior erro que a humanidade comete. Evitar falar sobre isso. Não que não seja emitido nacionalmente nas telas das nossas televisões o fato de que o número de crianças que são submetidas a essa crueldade cresce absurdamente. Não que não saibamos a quantidade de crianças que perdem, todos os dias, a chance de crescer, de brincar e até mesmo de viver. Não que não esteja retratado em nossos livros de história, histórias que demonstrem que desde os tempos antigos as crianças também eram torturadas. Isso tudo está explícito. Mas, falar sobre o tráfico de crianças torna-se perigoso. Perigoso para alma.

A arte de escrever demônios




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             Ás vezes penso que tudo o que escrevo não passa de uma ilusão. É como se no final da última linha, do último verso o sentimento moralista invade a criatividade e o escritor precisa fazer com que o leitor faça a coisa certa. Espante seus demônios, caro amigo, e a vida ficará bela. Mas, acho que não é bem assim que acontece. Na realidade, escrever para alguém é nada mais nada  nada menos que escrever para e sobre si mesmo. Trocamos a tela por um espelho. Um papel por um auto retrato. Afinal, fica muito mais fácil dizer que é apenas uma história criada para encantar leitores e emaranhar-se nas curvas da imaginação. Até porque, no momento que você fala sobre algo você também sente esse "algo" ou pensa nisso ou percebe isso ou, até mesmo, quer fugir disso. Digamos que seja como dar um conselho. Conselhos sempre são dados baseando-se no que o conselheiro acha e pensa ser o melhor, e muitas vezes, seu ambiente observatório seja a própria a vida. Os conselhos podem dar certo para quem escuta e não dar para aqueles que o falam, Então, o fato de alguém escrever sobre saudade pode significar que esse alguém sente saudades. Falar sobre amor é só mais um sintoma de indivíduos amantes que pensam que rosas nunca murcham. Poetizar sobre dor é trazer dor no fundo do peito. Escrever, sem mais delongas, é despertar seus próprios demônios. É mostra que eles existem, eles persistem, eles possuem uma certa beleza interior e no final são sufocados com o final moralista do texto.